O retorno (ou Sobre caminhos e tempo)

O tempo, sim, mais uma vez o protagonista de todos os “tempos”… Desde minha última escrita aqui tantas coisas se passaram que nem sei por onde começar… Ou melhor, será necessário dizer tudo à miúde? Ou deixemos que o tempo se encarregue de ir mostrando as pegadas? Só posso dizer que esses pés dançantes pisaram outras terras, e o pequeno, que está prestes a completar 15 meses na próxima quarta feira, também experimentou as terras arenosas e marítimas de Santa Catarina e depois de 130 dias subiu até retornar às Minas Gerais, só que dessa vez, pro Campo das Vertentes ao invés do Triângulo Mineiro. E cá estamos… Nas delícias e dilemas da maternagem consciente full time.

Foram muitas as ocasiões em que desejei voltar a escrever aqui, mas a vida estava intensa demais – ainda está, mas está menos turbulenta. Foi então que ao reler meus registros despretensiosos, pensei que poderia voltar aos poucos e talvez até fazer uma dobradinha desse diário fixo com uma plataforma mais instantânea, só pra não perder o momento… Ou o Tempo! Estou ouvindo meu coração, e logo devemos ter nossos pés dançantes de passagem também pelo Instagram. São caminhos distintos com um mesmo propósito… Compartilhar, Curar, Trocar ❤

Seguimos de passagem, sempre em busca pelo caminho do meio!

 

 

Sobre simplicidade…

Dentre as belezas e sutilezas de acompanhar sua existência, a que mais me fascina hoje, é esse seu olhar, atento, curioso. A sensação é de ter ganhado uma segunda chance pra redescobrir a vida. A perspectiva já não é mais a mesma, muda a casa, o trabalho, muda tudo. Muda o meu olhar diante de tudo e todos, porque hoje vejo através dos teus olhos, que tudo vêem pela primeira vez. É lindo de ver e sentir as suas descobertas desse mundão. Isso me faz cada vez mais acreditar que a vida se faz desses instantes de simplicidade, e hoje entendo bem quando dizemos que “menos é mais”. É mesmo!

Ontem você se virou sozinho pela primeira vez sem muito esforço. Vinha tentando há dias e ontem conquistou essa posição em que o mundo começa a ser visto de cima para baixo. Foi lindo ! Queria mesmo eternizar esses momentos… me redescubro vendo você se descobrir em sua autonomia, e isso é libertador ! Estamos juntos, lado a lado, nos apoiando (mesmo que você ainda não saiba da sua contribuição gigantesca nesse meu processo). Então, mais uma vez agradeço, por me emprestar seus olhos e me permitir ver o mundo assim, simples e cheio de emoção. Que seu olhar continue atento e curioso, vendo aquilo que os já crescidos, como eu, não conseguem mais perceber… e que eu continue a me empregnar dessa simplicidade que só você me traz ❤

Uma carta pra você (ou sobre o fim da licença maternidade)

Hoje, estou chorosa. Velo seu sono como quem vela o bem mais precioso. Olho nos seus olhos, quando abertos, e me conecto à você de forma a explicar que meu choro não te pertence. Mas você insiste em me ensinar que entende tudo, mas que também está sentindo esse choro engasgado.

É chegada a hora. Hoje é nosso último dia útil de licença maternidade. Conseguimos 1 mês extra e no domingo você completa 5 meses aqui desse lado de fora. Segunda feira estaremos experimentando um novo universo, aquele em que regras, horários e metas são esperados. Teremos forçosamente uma rotina. Mas não se preocupe (será que isso é pra ele ou pra mim?), estaremos juntos. Você estará ao meu lado e vamos juntos descobrir essa nova dinâmica. E por favor, me perdoe se estou invadindo seu sossêgo e te trazendo pra esse mundo das rotinas, com muita gente, muitos abacaxis mas também muito afeto e sorrisos e movimentos dançantes, é que ainda não sei ser eu sem você por perto. Pode ser um equívoco, mas precisaremos fazer isso juntos e descobrir juntos também! Me perdoe o egoísmo, mas meu coração ainda não suporta estar longe de você. Sei e sinto que você vai me surpreender e me ensinar um outro jeito, uma outra forma de existir no trabalho e juntos iremos aprender essa nova forma de co-existir.

Continuarei velando seu sono, acordando nas madrugadas, te amamentando, te dando colo e observando suas conquistas, isso tudo somado ao dever que me chama. E sim… meu “visu” panda vai ficar ainda mais acentuado, minhas noites e dias mais cansativos, mas saber que apesar de tudo ainda tenho o privilégio de ter você comigo sem interromper nossos planos de livre demanda na amamentação, já acalma meu coração e faz tudo valer a pena.

Sigamos, um dia de cada vez. E veja só, amanhã ainda é sábado!

Gratidão, meu filho, por me permitir rever o tempo e o espaço, e por me fazer entender que para tudo há um propósito. Espero que você me entenda e não se zangue, nos tornaremos ainda mais parceiros, te garanto.

Com amor, 

Sua mãe.

Sobre vínculo, afeto, erros e acertos

É velando seu sono que me dou conta, com olhar sutil, da potência do nosso vínculo mãe-filho. Certa vez me disseram que nossa relação beirava a possessividade, mas não se preocupe… sei bem que você não me pertence (apesar de dizer isso à contra gosto), sei que sou arco e você flecha, mas sei também que enquanto fores assim, pequenino, estarei por perto e junto de ti, fazendo o meu melhor (que será muito provavelmente cheio de erros e acertos).

Nossos 3 meses de “exterogestação” foram intensos e tenho certeza que nosso vínculo se fortaleceu ainda mais com esse cuidado e atenção. Sei que muitas vezes agi como mãe-bicho, mas me permiti viver esse lado mamífero e cheio de instintos. Sei também que isso não foi sempre aceitado e compreendido por quem compartilhou da sua chegada, mas eu não esperava compreensão, respeito e acolhimento me caem bem melhor. Se conhecer mãe não é tarefa simples, é preciso paciência, consigo e com os outros. Às vezes dá certo, outras tantas não, mas na incrível jornada de erros e de acertos, estamos sempre aprendendo. 

Há 16 dias completamos 4 meses seus aqui de fora. Estamos começando a ver seus olhos curiosos, seu riso largo, suas mãos e pernas inquietas, seus movimentos mais precisos, seu desejo de ir adiante e conhecer o mundo… já tens até 2 dentinhos, mesmo que nosso período de aleitamento materno exclusivo seja até o seu sexto mês completo. Tantas conquistas em tão pouco tempo… meu coração chega a explodir de orgulho, alegria e gratidão (as lágrimas também são presentes, não nego que isso tudo tem sido rápido demais, mas mãe é assim mesmo, bicho besta e babão das cria). Sua vontade de ver o mundo e saber ao mesmo tempo que estou sempre aqui, ao seu lado, a estender as mãos para quando precisares, é reconfortante não só para ti, mas principalmente para mim. Minha gratidão é infinita por saber que já sou outra e que estou constantemente a mudar por ti (entre erros e acertos).

Gratidão por me permitir sentir esse amor e por me dar forças para ser o melhor que consigo, por mim e por você.

Sigamos, meu filho, nessa incrível jornada!

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Sobre o tempo e coisas sagradas (ou sobre nós)

Você dorme grudadinho em mim. Sinto o peso e o calor do seu corpinho sobre o meu ventre e peito. Coincidentemente ou não, essas foram e são suas moradas (em ordem cronológica), e é justamente nesse espaço de tempo que tenho a sensação de fazer o tempo pausar. Esse nosso refúgio é sagrado e é disso que quero falar.

O tempo, a gestação, a maternidade, a amamentação, o feminino… o universo que me rodeia está diretamente relacionado com essa lista de coisas sagradas (para mim). Essa é a fase que vivo hoje, aqui e agora. O que já foi, passou, e o que ainda está por vir não me pertence. Sei o que sinto hoje, e posso dizer que tenho medo. Medo de não conseguir redescobrir a vida onde você não é o centro dela. Me falta ar, mas nunca água. Sou uma fonte inesgotável e transbordo constantemente. Disseram-me que tem a ver com uma tal estrela Alcione que está no meu mapa astral, eu acredito e na verdade me conforto em saber. Minha fonte não seca e me abre (para) o mundo, me coloco à prova e me exponho… me sinto forte, porque com esse aguaceiro todo, lavo minha alma. Tenho feito isso constantemente, isso de lavar a alma e é com esse ritual que acredito redescobrir o mundo com você, talvez não sendo o centro, mas estando sempre ao meu lado. 

Sei que o caminho ainda é longo e será preciso muita paciência, minha, sua e de quem nos rodeia. Mas sei também, que a potência da fragilidade e da fortaleza que me habitam, desde o seu nascimento, há de pulsar e nos impulsionar!

O mantra de agora é “Eu entrego, Eu confio, Eu aceito, Eu agradeço“. Sabemos onde nos encontrar para pausar o tempo e nos fazer esquecer por instantes da barulheira lá de fora. Nosso refúgio é também nosso consolo e meu colo e meus braços sempre hão de nos confortar mutuamente. Nosso tempo só precisa ser entendido, medido e cronometrado por nós, e por agora isso me basta.

PS: há exatamente um ano, me descobri grávida. Que alegria a minha, saber hoje, da nossa incrível jornada! Gratidão, mais uma vez, ao Universo que nos permitiu esse encontro _/\_

100 dias e o maior amor do mundo

Você já não usa mais as fraldas tamanho RN. Mesmo que em algumas delas estivesse escrito que elas seriam para os seus primeiros 100 dias. Você não usa mais RN XP, e nem mesmo a P. Essa semana começamos com a tamanho M, e não foram só as fraldas, foram as roupas também.

Te vejo crescer cotidianamente. Bem mais rápido do que eu certamente gostaria, mas estou aqui, acompanhando tudo.

Hoje fazem exatos 100 dias que você respira o ar, sente a brisa, o calor, o frio, a fome, a sede… E eu, bom, eu sinto o maior amor do mundo. E com ele sinto dor, medo, insegurança, dúvidas e mais um turbilhão de emoções que, só quem tem ou teve um pacotinho de amor nos braços pode entender.

A maternidade e a maternagem são desafiadoras. Belas, plenas, intensas, mas desafiadoras. Bom, pelo menos para mim tem sido assim. E não se engane, ao contrário do que muitos e muitas pensam, mãe não é tudo igual. Cada uma de nós, sente de um jeito, faz escolhas do seu jeito, ama do seu jeito, e se transforma de um jeito diferente da outra. Semelhanças existem, mas não me venha nos colocar no mesmo barco porque cada uma rema de um jeito.

Tenho me surpreendido constantemente com as minhas mudanças. Desde que você chegou, meu filho, meu mundo girou 360° graus. E por mais estranho que possa parecer, tenho a sensação de que muitas coisas se encaixaram, muitas coisas fazem mais sentido e tantas outras não mais. Posso afirmar com toda a certeza que não sou mais a mesma de antes de você chegar, e isso não me incomoda. Parafraseando a Isadora Canto, “É como se eu tivesse esperado toda vida pra te embalar”. E me lembro, de quando ainda tinha você dentro de mim e ouvi de uma pessoa querida, que despretensiosamente lia traços do meu mapa astral à meu pedido, me disse que a maternidade mudaria intensamente minha vida, e eu respondi, já está mudando.

Hoje sou, antes de mais nada, Iara mãe, e depois esposa, artista, curiosa pelas artes do corpo e da alma. Meus paradigmas mudaram e minha perspectiva também. Ciclos se encerraram para dar lugar a outros novos e desconhecidos. Não tenho medo de querer estar com e para você por um ano ou mais, mas tenho sim, muito medo de não poder estar, de “ter que” isso ou aquilo e não poder desfrutar de cada descoberta do mundo que você já faz e irá fazer. Meu coração aperta só de pensar. Pode chamar de apego e o escambau, não me importo, é como disse uma querida que conheci (virtualmente) à pouco tempo “seria a razão, se não fosse a emoção da minha vida”. E é bem isso!  E o que há de errado nisso? É como eu disse, mãe não é tudo igual. E cada uma vai se (re)descobrindo mãe. As regras, quando o assunto é maternidade, caem em desuso, ficam ultrapassadas e não necessariamente se encaixam para todas as famílias.

Prova é que aqui estamos, eu e você e seu pai e a Praline, há 100 dias aprendendo e criando as nossas próprias regras, ou melhor dizendo, a melhor maneira de sermos essa família. Estamos há 100 dias em constante mudança e num amor crescente. Estamos há 100 dias acompanhando seu desenvolvimento e vibrando com cada pequenina e grandiosa conquista. Há 100 dias te amamentando olho no olho em livre demanda. Há 100 dias sentindo você em meus braços e transbordar de amor no meu coração.

Celebrando a vida (ou uma “oração ao tempo”)

… Hoje o tempo voa amor, escorre pelas mãos, mesmo sem se sentir / E  não ha tempo que volte amor ! Vamos viver tudo que ha pra viver, vamos nos permitir…

Hoje, já se passaram 90 dias de convivência diária com você, meu filho. E que jornada ! E quanto amor! – se a gente acha por um segundo que não é possível amar mais, no segundo seguinte descobrimos que sim, é totalmente possível.

Hoje entendo todas as mães que em algum momento me disseram “aproveita que passa rápido“, e como passa ! Passa muito, mas muito mais rápido que imaginamos e gostaríamos!

Hoje, dou valor em coisas simples do cotidiano – dormir, comer, tomar banho, escovar os dentes, fazer xixi ( cocô também). – Mas valorizo também, cada segundo passado ao seu lado, tenho a maior alegria do universo em poder desfrutar da sua companhia e aprender a sua “língua”.

Hoje, e desde o seu nascimento, experimento a estanha sensação de ser outra pessoa,com prioridades e perspectivas completamente diferentes das que eu tinha antes de tê-lo em meus braços.

Hoje, eu sei o que é querer a dor alguém pra mim, na tentativa frustrada de fazer parar a sua dor ou desconforto e querer que sejam meus.

Hoje, me entristece ver o nosso país, por desejar que ele fosse melhor pra você.

Hoje, eu sei que você vai chorar, e que eu, não saberei necessariamente a razão, mas ficarei ao seu lado, sempre, até que você se acalme. (e tentarei não me sentir culpada por não saber ou por vez ou outra me irritar com você, pela minha frustração de não saber).

Hoje, entendo melhor que a mãe perfeita não existe. Somos feitas de carne, osso e emoções. Nem sempre damos conta de manter a calma ou equilíbrio. Somos cheias de falhas, mas não nos falta boa vontade e o desejo de mudar. Por você, tento ser suficientemente boa, mas quero sempre ser melhor que ontem e hoje.

Hoje, quero mudar o mundo e as regras, principalmente àquelas que estão ligadas diretamente ao aleitamento materno exclusivo e que portanto, se esbarram nos direitos de uma licença maternidade adequada (já estou sofrendo por antecipação). Meu desejo mais puro nesse momento é não perder nenhum segundo do seu desenvolvimento, e continuar sendo “teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida“. Hoje não sei ficar longe de você, e na verdade eu não quero.

Hoje, eu te conheço mais e cada vez melhor, justamente por desfrutar de cada segundo ao seu lado. E isso me acalma de certa forma.

Hoje, queria que o tempo parasse, ou que ele passasse um pouco mais devagar, pra eu poder memorizar mais detalhadamente o que já vivemos até aqui …

O amor é tanto que escorre… pelos olhos.

Gratidão pela incrível jornada… que está apenas no inicio do inicio…