Um outro ponto de vista (ou o Relato da Doula)

Pouco depois de publicar o meu relato de parto, compartilhei com a equipe que me assistiu durante essa minha travessia. Uns dias depois, minha doulAmiga Carina, me escreveu dizendo que quando estivesse inspirada, ela também escreveria o relato dela sobre o meu parto. Já tem umas semanas que ela me enviou e, como eu fiquei muito emocionada com o presente, decidi compartilhar aqui…

Parto da sereia

 
Era domingo, 31 de janeiro, eu apreensiva com a notícia de que o Pai da Cecília só chegaria dia 02 de fevereiro em Uberlândia (ele havia saído da cidade para fazer um concurso). Afinal, havia voltado ao Triângulo praticamente apenas para acompanhar o parto da sereia e não tinha outra retaguarda pra ficar com minha pequena além do pai dela, caso eu precisasse acudir a gestante que já (ou ainda) estava com 39 semanas e 5 dias.
 
Muito calor. A lei de Murphy não falharia. Nunca falha. Não importa o dia que eu viajasse pra Udi, o bebê decidiria nascer exatamente quando EU estivesse mais tensa e despreparada, porque tudo num parto é aprendizado.
 
Dia 31, domingo, Fui dormir com a minha filha, esperando ficar mais uns 10 dias na cidade. Já estávamos há quase 2 semanas por lá, sendo acolhidas com respeito e abraçando as oportunidades de crescimento que nos apareciam.
 
Na noite daquele domingo, a sereia entrou em contato comigo por mensagem dizendo estar com uma dor (suspeita) de gases. Nesse momento, eu respirei fundo. Pensei em dizer a ela que poderiam ser os pródromos (fase inicial do trabalho de parto), mas eu mesma não queria acreditar nisso. Queria apenas que o bebê esperasse o MEU momento de prontidão e controle. Já havia “arquitetado” tudo na minha cabeça: Pai da Ceci chegará e eu estarei muito tranquila para atendê-la de forma plena, sem precisar acionar a querida backup para alguma emergência (trabalharíamos juntas, caso sereia quisesse).
 
Mas como se não bastasse o MEU parto ter me mostrado que eu não consigo controlar tudo, aquele primeiro parto desde o meu nascimento como mãe vinha me mostrar coisa muito semelhante.
 
Dormi e tive sonhos muito conturbados. Era como se eu estivesse num local de muitas pessoas e muitas delas falando ao mesmo tempo. Sentia uma vontade imensa de fazer xixi (no sonho) e não conseguia, pois não havia porta nos banheiros e todos me observavam… O xixi não saía (ainda bem, senão teria feito na cama). Acordei e fui ao banheiro. Quando voltei, vi que meu celular brilhava muito, mas não havia tocado. Eram 3:00 da manhã de segunda-feira. Uma mensagem da gestante enviada ainda no final do domingo (que eu não tinha visto) dizendo que estava com contrações. Depois, um grupo no zap com os demais profissionais que assistiriam o parto em altas conversas enquanto eu, simplesmente, dormia.
 
Meu corpo estremeceu. A ideia de que as contrações já estavam próximas e que logo estariam regulares e doloridas me assustou muito. Eu não poderia ir caso ela me chamasse. Eu, que repeti para a sereia tantas vezes que ela não precisaria de ninguém pra parir além dela mesma, entrei numa onda de achar que a minha presença seria extremamente necessária.
 
Antes de voar pra Uberlândia, quando ainda estávamos na indecisão se eu deveria mesmo estar lá, eu havia dito a ela que eu estaria sem suporte com minha filha no último final de semana de janeiro. Mas claro que, naquela altura do campeonato, ela não lembrava desse fato e euzinha jamais iria reavivar sua memória naquele momento, com medo de que ela ficasse ainda mais ansiosa.
 
Desde o nascimento da minha filha, nunca havia ficado tão tensa com a ideia de não poder cumprir com minha palavra referente a algo ou de não poder ser a profissional que toda mulher merece ter ao lado (se é que ela precisa de uma “profissional” ao lado).
 
Imediatamente entrei em contato com a doula amiga backup (que eu havia encontrado no dia anterior, de forma totalmente espontânea ou bem arquitetada pelo universo) e a coloquei a par da MINHA situação. E ela me tranquilizou de uma forma tão incrível que, naquele momento, meu coração serenou e eu pensei: será o que tiver que ser. Estará quem estiver que estar. (doula também precisa de doula. E, nesse momento em que conversávamos sobre os pródromos da gestante e sobre a nossa situação, estávamos trabalhando em dupla, de forma muito integrada, sem que ninguém soubesse, nem a gente).
 
Entrei em contato às 5:00 da manhã com a avó da minha filha, que mora na cidade, e ela estaria de plantão na segunda, não podendo me ajudar muito com a Ceci, como eu imaginava. Então, diante da notícia de que as contrações haviam se espaçado e de que ela e o marido não queriam ninguém da equipe por perto, resolvi tentar dormir, pois já eram 6:30 da manhã. Eu havia organizado mentalmente as mais diferentes formas de prestar um atendimento digno e não desamparar a minha filha. Na minha melhor forma de tentar abraçar o mundo com as mãos.
 
Poucas horas depois, minha bebê acordou e a vida seguiu como deveria seguir. Liguei para o pai dela e quase que o intimei a pegar o primeiro ônibus de volta (antecipando seu retorno pra Uberlândia em 1 dia), pois de segunda com certeza não passaria. Deu certo. Enquanto a sereia curtia seu início de trabalho de parto em casa com a família, Rafael voltava pra ficar com Cecília.
 
Na mesma hora em que o ônibus estacionou na rodoviária, 18:00, o marido dela me ligou, dizendo que ela havia pedido pra me chamar. Ufa! Tudo certo. Havia preparado tudo. Novamente vislumbrei uma situação controlada. Entreguei minha pequena e fui.
 
Ao chegar, achei curioso o tom amistoso de conversa do casal com a amiga-fotógrafa (que havia chegado um pouco antes). Adentei a casa deles às 19:15 de segunda-feira, primeiro dia de fevereiro. Ambiente alegre, muita “sala” e pouco recolhimento.
 
Algum tempo depois, as contrações voltaram com mais intensidade e a enfermeira obstetra chegou ao local. Após as primeiras avaliações (sem exame de toque), imaginou já estar com dilatação avançada, embora as contrações estivessem mais fracas.
 
Para eu não ficar “de mãos abanando” e gerar um clima de ansiedade, resolvi encher a piscina  com a ajuda da fotógrafa e criar um clima acolhedor, caso ela quisesse relaxar no andar de baixo. O marido logo me disse: ela não vai querer entrar nisso, nem descer. Mas senti que era o meu trabalho oferecer a ela possibilidades de alívio. Mas foi pra mim mesma que eu a enchi, para Me ocupar.
 
Antes desse dia primeiro se despedir definitivamente, a enfermeira foi embora, deixando-nos a sós, mas a postos para qualquer mudança no quadro.
 
Tentei “ajudar” a sereia a “engrenar” o trabalho de parto, fazendo com que ela se movimentasse. Realmente, quando isso acontecia, as contrações vinham menos espaçadas e com mais intensidade. Lembro que o corpo dela pedia cama e a doula carrasca aqui repetia: “isso é trabalho de parto e não férias de parto”. Sorríamos, mas certamente ela queria me matar.
 
Eu, como doula, sei que o cansaço de um trabalho de parto muito extenso é uma das principais causas para cesarianas ou pedidos de analgesias. Eu, sinceramente, queria evitar isso, queria evitar que o trabalho de parto se estendesse muito (tanto pelo cansaço que eu sei que iria abatê-la, como pela equipe inteira e, claro, por mim – porque somos egoístas mesmo).
 
Tudo caminhava como tinha que ser. Quando eu saía de perto, ela deitava e tentava dormir ao lado do marido. Quando eu estava por lá, ela caminhava, quicava na bola, rebolava, fazíamos massagens, bebia e comia à vontade. A máquina da fotógrafa interrompia alguns gemidos e vocalizações com seus cliques. E confesso que isso me incomodou um pouco, embora as fotos tenham ficado belíssimas e ela tenha tentado ser o mais discreta possível.
 
Às 2:00 de terça-feira, madrugada menina, as contrações vieram de forma muito intensa. Entrei em contato com a enfermeira, que me pediu para ver se estava com puxos. Não estava. Estava no chuveiro. A ajudei a sair de lá, mas as contrações pareciam realmente doloridas. Seu corpo trabalhava intensamente. Era lindo de ver. A médica obstetra chegou. Conversaram. Tentou ajudar o máximo, suave, tranquila, como sempre.
 
E então eu me vi contando os minutos das contrações. E isso me incomodou. Incomodou porque eu não acredito que isso seja importante. Existem outros sinais mais significativos. E acredito também que esse não era o meu papel. Estava tentando ocupar a mente, afinal, num período de 24 horas, eu havia dormido três. Me senti sempre “querendo mostrar serviço”, mostrar que minha presença fazia alguma diferença ali (talvez pra mim mesma). Mas a verdade é que não fazia.
 
A essa altura, meu seio começou a encher, encher, quase explodir. Fiquei vários minutos tentando fazer ordenha manual. Não adiantava. Troquei de blusa, tirei o sutiã. Sentia o meu peito empedrar. Subia até o quarto do casal para ver como íam as coisas, se precisavam de algo para comer ou beber. O que eles precisavam era descansar em paz, apenas.
 
Lembro que me sentei num banco amarelo e fiquei observando (como os que me observavam no banheiro do sonho) a sereia num canto do quarto, no chão, encolhida, com muito frio, vocalizando durante contrações bem doloridas. Pelos sinais, achamos (equipe) que nasceria em instantes. E eu ali, fazendo nada (agora entendo por que Michel Odent fala das parteiras que tricotavam durante os TPs). Apenas presente, para que o casal soubesse que eu estava ali. E ao mesmo tempo com medo de estar invadindo (o espaço deles, o momento deles, a história deles, o descanso deles).
 
Algumas vezes eu lia no olhar da gestante pra mim: “estou fazendo certo?”… E eu não sabia lidar com isso porque estava tudo ótimo, lindo, mas não sabia como convencê-la. Eu me senti plateia, mas num espetáculo da sereia que era pra ser íntimo. Era disso que ela precisava: sair de cena, pra se “re-estrear” (agora, como mãe).
 
Pegou a banqueta, bolsa rompeu, alegria e confiança. Deviam ser umas 5:00 da manhã de terça. Passou-se mais algum tempo e ela pediu pra deitar e descansar. Contrações pararam novamente. Eu não conseguia descansar nada. A enfermeira chegou e conversou com a médica uma forma de melhor ajudá-la.
 
7:00 da manhã, chegou a outra doula. Eu já não sabia o que fazer e a equipe sabia disso. Não achava que deveria tirá-la da cama ou incentivá-la a se exercitar. Não achava que poderia ajudar de nenhuma forma. Então conversamos (equipe) e a doula 2 trouxe uma energia revigorada, uma mente fresca, alegria e experiência.
 
Ouviram música (que eu havia sugerido antes, sem sucesso), rebolaram com o rebozo (minha canga foi mais útil que eu), mentalizaram, conectaram as energias do feminino. Ela chegou chegando. Enquanto isso, Rafael levava Cecília pra mamar (era o único jeito de desempedrar meu peito), as meninas comiam um pouco, a fotógrafa voltava pra casa e o marido ia tomar um banho.
 
Em nenhum momento ele a deixou sozinha. Eu já não sabia o quanto isso fazia parte de uma necessidade dele ou dela (ou de ambos). Haviam criado um ambiente tão íntimo, mas tão íntimo e imbricado, que ninguém de fora conseguia cutucar (risos).
 
Contrações se espaçaram novamente. Víamos o cansaço e o desespero misturados com ansiedade abaterem os dois. Doula 2, num momento em que sereia estava na bola com o marido, colocou a música “oração ao tempo”, do Caetano, cantada por Bethânia. Nessa hora, eu subi. E sereia desaguou. Chorou muito. Todos choraram. Fizemos quase que um círculo de energia. Todos nos tocávamos. Ninguém sabia o que fazia com que as contrações viessem fortes e ritmadas e depois parassem quase que por completo. Aquele choro sincero foi muito bom para todos. Porque todos estavam perdendo o controle. Todos estavam sem saber. E esse “não saber” era necessário.
 
Eu estava abismada, cansada, me sentindo impotente, porque tem hora que você esgota os seus recursos físicos, psicológicos (que já não são abundantes), tentando adivinhar o que pode ser ou o que vai acontecer. Falando em termos técnicos sobre uma causa que era visivelmente única, psicológica, especial. Tentando caçar ajuda em matérias de cunho estritamente pessoal. Só nos restava esperar.
 
Eu via a parideira se culpando muito, achando que a cabeça dela não se desligava e, por isso, o bebê não nascia. Eu nunca tinha visto nada parecido. Perguntava (sem perceber que esse NÃO era o meu papel) para a equipe de saúde o que poderia estar acontecendo e, diante das análises e suposições, ninguém tinha uma resposta.
 
Não havia resposta a dar porque não havia pergunta a fazer. Não havia mais nada a falar que pudesse dar uma “luz” para a reversão do quadro, porque não havia quadro nenhum a reverter. Aquele bebê iria nascer, independente de nós, independente de sua mãe cabeçuda, inclusive.
 
10:30 da manhã, eu falei à equipe que estava reunida na sala: “eu vou embora. Não tenho mais nada a fazer aqui. Eles precisam de privacidade e eu preciso dormir. Aliás, acho que ninguém tem mais nada a fazer aqui”. Houve ainda alguma relutância quanto a isso. Elas pediram pra eu sugerir ao casal um passeio pelo condomínio. Disse que sereia só iria se o marido pedisse (eu não tinha mais moral pra pedir nada, hehe). Assim fizeram. Decidiram caminhar depois de fazer com que ela tomasse um chá revigorante, estimulante e “vomitante”. E nós decidimos ir embora. Acho que foi minha melhor ação como doula naquele dia.
 
Doula 2 me deu uma carona. Conversamos um pouco. Ao final, ela disse: “é, acho que o que precisa pra esse parto engrenar é cada um ir cuidar da própria vida”.
 
Cheguei 12:00 em casa. Preferi dormir a comer. Ceci me acompanhou. Acordei 16:00 e fomos tomar um banho. Estava pronta pra outra. Sabia que a equipe iria avaliá-la às 14:00 e posteriormente só às 23:00 da longa terça. Comi bem, brinquei com minha filha e falei à equipe que estava pronta para ser chamada. Estava ali, disponível pra eles caso precisassem.
 
Dormi. Acordei algumas vezes na madrugada de quarta-feira, 03 de fevereiro, e mandei mensagem, no que as meninas (médica e enfermeira) respondiam apenas que estava tudo correndo bem. Dormi mais profundamente. Acordei 5:00 da manhã pensando o motivo de não terem me acionado. Fiquei na dúvida se eu deveria ter ido independente disso. Meditei e caí na real: o bebê só precisa da mãe dele para nascer e ela já estava lá. Dormi novamente. Às 7:00 acordei com uma mensagem dizendo que o bebê havia nascido e que era pra eu ir pra lá esvaziar a piscina (como uma mandala: eu fiz e desfiz, pra mim mesma, para trabalhar o desapego e a concentração).
 
Fiquei feliz. Me arrumei e fui. Cheguei 8:00 de quarta e vi uma recém-mãe, com seu recém-nascido e o recém-pai lindos, cansados, mas felizes e satisfeitos, depois de 55 horas de expectativa, dor, entrega, desconfiança, esperança, força, fraqueza, julgamento, brincadeira, amor, união, frio, calor, banho, cobertor, cama, chão, bola, calçada, escada, Praline preocupada, sorriso, olheiras, leite, lágrima, colchão na sala, conversa, piada, foto pelada, silêncio, sono, puxo, raiva, brilho, olhares, família formada.
 
Foi uma experiência incrível ver uma mulher ser respeitada integralmente em suas vontades e convicções, em sua intimidade e no seu tempo.
 
Foi uma experiência transformadora saber que ir embora pode ser a melhor coisa a se fazer. Saber que eu posso contribuir com a minha ausência.
 
Foi uma experiência reveladora por ter ainda mais certeza de que o silêncio é precioso, de que não existem padrões, de que bebês sabem nascer e mulheres sabem parir e de que (na maior parte do tempo) menos é mais.
 
O melhor que uma equipe de atendimento ao trabalho de parto e parto pode fazer é garantir à mulher um ambiente seguro e acolhedor para que ela esteja, definitivamente, entregue a si mesma.
Para conhecer melhor a Carina Calheiros, clique aqui.
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